Sobre SLA

O Projeto Software Livre nas Aldeias se incia no processo de implementação social do programa Gesac (Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão), que oferece internet via satélite e formação tecnológica aos pontos atendidos pelo programa. A implementação social do programa no nordeste brasileiro intensifica sua relação com as aldeias indígenas após a Regionalização da IV Conferência Nacional de Saúde Indígena (CNSI), que ocorreu na Aldeia Pataxó Coroa Vermelha, em março de 2006, reunindo os povos Pataxó Hãhãhãe, Tupinambás, Pataxós, além de integrantes do Projeto Índios Online, da ONG Thydewá. A Regionalização também ocorreu na Paraíba, na Aldeia Cumaru e em Minas Gerais, em São João das Missões. A atividade resultou de uma parceria entre a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e o programa Gesac, do Ministério das Comunicações. As comunidades participantes do evento receberam servidores com Sistema Operacional Livre para os tele centros de cada aldeia. Em seguida, foram realizadas visitas e oficinas nas aldeias que tinham conexão do programa Gesac, contribuindo com o processo de migração ou implementação do software livre – alguns tele centros já começaram a funcionar com softwares livres

O trabalho começa com o contato via email ou telefone, para agendar as melhores datas para as visitas, saber a disponibilidade das pessoas em nos receber e em realizar os projetos em suas aldeias. Após esse confirmação realizamos as visitas, para conhecer as comunidades, apresentar a proposta do projeto às suas lideranças, conhecer das pessoas ativas e outros projetos sociais realizados nas aldeias, reconhecer das demandas de cada local, avaliar a interação já existente entre as pessoas e as ferramentas de tecnologia existentes, além das condições técnicas e estruturais para a realização das oficinas Dessa forma nos aproximarmos de forma orgânica em cada localidade, usando da melhor forma os recursos humanos e tecnológicos disponíveis em cada aldeia.

Todo esse processo, desde o início das atividades com as conversas, passando pela organização e limpeza do espaço, dos computadores, do convite aos moradores, é feito em conjunto com os “parentes” e faz parte da metodologia do projeto. Este formato também caracteriza as oficinas, que começam no reconhecimento de todo equipamento existente, ajustes e adaptações da rede elétrica, montagem das máquinas, confecção de todo cabeamento, instalação do sistema operacional livre, interação com a interface gráfica, instalação e manipulação dos aplicativos, tudo como parte do processo de aprendizagem coletiva.

Uma parte interessante e inovadora das oficinas é a pesquisa orientada na rede sobre cada etnia, o que existe de registro sobre ela, os autores das postagens e quem da aldeia os conhece, se alguem da aldeia escreveu ou postou algo, buscando perceber como o mundo vê e interpreta aquela etnia. Esse é ainda um momento para trabalharmos o uso de ferramentas de busca na net, como potencializar, direcionar e torna-la avançada, de acordo o que cada um quer achar na internet. Depois de ver e ler cada link da pesquisa vamos conversar sobre os resultados e a veracidade dos escritos, discutir sobre a veracidade do que se publica na net, e a facilidade de se publicar qualquer coisa na rede. Na maioria das aldeias a sensação coletiva é de desagrado pelas publicações, categorizando muito oportunismo e desrespeito as comunidades, que não concordam com os resultados. Dai partimos para uma pesquisa local, com os mais velhos, sobre a história daquele povo e, organizados em equipes, vamos para o registro das histórias, dessa vez feitas por eles, os índios. Nessa etapa é quando produzimos boa parte dos do conteúdos resultantes das oficinas e quando fazemos oficinas especificas de cada ferramenta tecnológica usada: editores de texto, imagens, áudio e vídeo, melhor uso de máquina fotográfica e fotografia, captação de áudio, diagramação e impressão de peças gráficas, de acordo as afinidades do grupo, e com essas oficinas específicas seguimos até o encerramento de cada etapa. Numa perspectiva de estímulo a leitura e interpretação de texto , fazemos uma leitura/exposição coletiva de todo material gerado e discussões, e ao final mais uma oficina de publicação na rede:blogues, wiki, fóruns, rau-tu.

Em dois anos passamos por 8 etnias, em três estados do nordeste, somando mais de 20 oficinas, todas nessa perspectiva de uso das tecnologias e softwares livres nas aldeias indígenas, e nesse tempo a proporção do trabalho atingiu outros estados e também se juntou a outros movimentos de tecnologias e projetos de inclusão sociais, de governo ou grupos autônomos, como no caso do do festival de tecnologia Submidialogia2, onde tivemos participação, junto com parentes Cumarus da Paraíba, numa mesa para falar dessa apropriação da tecnologia pelos índios e o papel do governo nisso

A partir daí as oficinas e possibilidade foram aparacendo de acordo as sugestões das aldeias e também de acordo o que cada uma já fazia, como por exemplo a rádio da aldeia Pataxó Hãhãhãe, que já possuía equipamentos de radiodifusão e precisava de um impulso para funcionar de forma cotidiana. Montamos a oficina de rádio livre, com a participação da Rádio Livre Amnésia, com intenção de produção de conteúdo e manejo das ferramentas para coleta, edição e publicação desse conteúdo , oficina que também aconteceu em Tumbalalá por duas vezes, também com participação da Rádio Livre Amnésia, mostrando o potencial dessa comunicação para as comunidades e ajudando, no caso de Tumbalalá, na elaboração de projetos independentes, com uso da rádio educação, reconhecido pela Redes de Culturas Indígenas como trabalho de referencia.
Ainda dentro do programa Gesac e usando a tecnologia disponível conseguimos organizar e articular entre aldeias vizinhas aos Kiriri e Tupinambá, oficinas de teatro do oprimido, técnica que envolve a comunidade em seus problemas, para de forma artística repensar as relações internas e trazer possíveis soluções ou novos formatos de bom convívio

Para que a interação entre tecnologias, povos indígenas, e as diversas práticas de comunicação tenha um caráter de continuidade e diálogo, mais que a simples transmissão de saberes, aconteceram novas etapas do projeto, com a aprovação do projeto Espalha a Semente no Prêmio Tuxaua Cultura Viva 2009, que realizou novas visitas e oficinas na aldeia Pataxó, em Porto Seguro-BA, partindo para interação entre as crianças e ancestrais locais com contação de histórias e desenhos, numa extensão da Escola Indígena Pataxó Coroa Vermelha, Escola Agricultura, e outra visita a aldeia Tupinambá, Ilhéus-BA com experimentação de audiovisual e mostra de curtas infantis, em nova parceria com o festival submidialogia4 Arraial D’Ajuda.

Em 2011 ocorreu o Cine Kurumin – mostra audiovisual indígena infanto juvenil , aprovado em edital da Secretaria de Cultura da Bahia de Apoio a Mostras e Festivais, que retornou em três aldeias da Bahia com mostras de cinema, exibição de longas e curtas baianos, e aprimorou os conhecimentos locais com oferecimento de oficinas de edição de vídeos em software livre, incentivando mais uma vez a apropriação critica das tecnologias e recursos que possuem (computadores, câmeras fotográficas e filmadoras, aparelhos de DVDs, espaços públicos), fortalecendo o protagonismo local.

Com toda essa caminhada o projeto acabou se fortalecendo e ganhando reconhecimento em ouras instancias, e no final de 2011 foi convidado para um encontro especial com os povos do Xingu, numa oficina de Conhecimentos Livres e apropriações da tecnologia, recebida pelo Pontão de Cultura Digital do Xingu, na aldeia Yawalapity, onde passamos uma semana apresentando, montando, instalando e mexendo nos equipamentos entregues pelo Ministério da Cultura, conversando muito sobre o uso dessas ferramentas, as dificuldades enfrentadas pelos índios e, mais uma vez, percebendo como essa tecnologia pode ajudar na defesa dos direitos, autonomia e cultura dos povos indígenas

Assim o Projeto Software Livre nas Aldeias chega aos 5 anos de estrada, procurando sempre acompanhar e se adequar as diversas realidades indígenas visitadas e relatadas para, através da tecnologia e suas ferramentas, empoderar essas comunidades, resgatar e registrar seus conhecimentos ancestrais para as novas e futuras gerações, valorizar sua cultura e dar visibilidade para sua continuidade, melhorar as formas de comunicação interna e externa das comunidades, garantindo seus direitos básicos.

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